Matcha é a nova febre gastronômica? Conheça o sabor, os benefícios e as combinações que viraram tendência
Depois da febre do pistache, outra tonalidade de verde começou a dominar as cafeterias e as redes sociais. O matcha, chá japonês conhecido pelo sabor vegetal e pela cor intensa, ganhou novas interpretações em bebidas geladas, combinações com frutas, sobremesas e chocolates.
Entre as versões que mais chamam atenção está o strawberry matcha latte, preparado com morango, leite e chá verde em camadas. A combinação, que já aparecia em cafeterias americanas há uma década, voltou a ganhar visibilidade com vídeos de preparo e receitas compartilhadas nas redes sociais.
O interesse também aparece nos números. Um estudo da Grand View Research publicado em 2026 estima que o mercado mundial de matcha possa alcançar US$ 8,86 bilhões até 2033.
A expansão, entretanto, levanta questões que ultrapassam a aparência das bebidas. Afinal, qual é o verdadeiro sabor do matcha? Ele oferece benefícios nutricionais diferentes dos encontrados no café? E como um ingrediente associado à tradição japonesa se transformou em uma tendência global?
O que é matcha e por que ele é diferente do chá verde comum?
O matcha é produzido a partir das folhas da Camellia sinensis, planta utilizada também na fabricação dos chás verde, preto e oolong.
Sua produção tradicional envolve uma particularidade: as plantas destinadas ao matcha passam por um período de sombreamento antes da colheita. A redução da exposição solar influencia a composição das folhas, favorecendo características relacionadas à cor, ao sabor e à presença de aminoácidos.
Depois da colheita, as folhas passam por vaporização e secagem. O tencha, matéria-prima do matcha, é processado e moído até atingir uma textura muito fina.
Outra diferença está na maneira de consumir. Enquanto no chá verde convencional as folhas são colocadas em infusão e depois retiradas, no matcha o pó é disperso diretamente na água. Assim, o consumidor ingere as folhas moídas.
O ingrediente ocupa um lugar importante na cultura japonesa, especialmente na cerimônia do chá, que valoriza o preparo, os utensílios e a maneira de servir.
Onde começou a nova febre do matcha?
Embora sua história esteja profundamente ligada ao Japão, a popularização contemporânea do matcha ganhou força em cafeterias de grandes cidades, especialmente nos Estados Unidos.
Em 2014, a abertura do MatchaBar, no Brooklyn, em Nova York, ajudou a apresentar o chá a um novo público, interessado em bebidas alternativas ao café.
Na Califórnia, a rede Boba Guys já servia, em 2016, o Strawberry Matcha Latte, uma bebida com purê de morango, leite e matcha. Sua apresentação em três camadas antecipava a estética que se tornaria tão popular nas redes sociais.
A partir de 2024, a circulação de receitas no TikTok e no Instagram ampliou a visibilidade das versões geladas, especialmente aquelas com frutas e ingredientes de cores contrastantes.
O resultado foi uma nova aproximação entre a tradição do chá japonês e os hábitos de consumo das cafeterias ocidentais.
Não é possível atribuir a febre atual a uma única cidade ou estabelecimento. O crescimento reúne a influência das cafeterias especializadas, das bebidas de inspiração asiática e das plataformas digitais.
Quais são as combinações de matcha que ganharam popularidade?
O matcha tradicional é preparado com água, mas as versões contemporâneas exploram leite, frutas, cremes e xaropes.
Entre as combinações mais conhecidas está o Strawberry Matcha Latte, feito com matcha, leite, purê ou calda de morango e gelo. O morango acrescenta acidez e doçura, enquanto as camadas vermelha, branca e verde ajudam a explicar seu apelo visual.
Outra opção difundida é o Iced Matcha Latte, que combina matcha, água, leite integral ou vegetal e gelo. O leite suaviza a percepção do amargor e confere uma textura mais cremosa à bebida.
O Vanilla Matcha Latte acrescenta baunilha, em xarope ou extrato, ao matcha com leite e gelo. A combinação oferece notas aromáticas adocicadas que contrastam com o perfil herbáceo do chá.
Entre as versões frutadas aparece também o Mango Matcha Latte, preparado com purê de manga, leite, matcha e gelo. A fruta contribui com doçura, textura e notas tropicais.
O Coconut Matcha utiliza leite de coco ou água de coco. Com leite de coco, a bebida tende a apresentar maior cremosidade. Com água de coco, o resultado costuma ser menos encorpado.
Já o Pistachio Matcha Latte aproxima duas tendências gastronômicas recentes ao combinar matcha, leite, creme ou calda de pistache e gelo. O pistache acrescenta notas de oleaginosa e modifica a textura da preparação.
As proporções e os ingredientes variam conforme a cafeteria. Não existe uma receita universal para essas adaptações, e a presença de açúcar depende dos produtos e das quantidades utilizadas.
Afinal, qual é o sabor do matcha?
Quem experimenta matcha pela primeira vez em uma bebida com morango ou baunilha pode se surpreender ao provar o chá tradicional.
O matcha puro apresenta um perfil vegetal e herbáceo, acompanhado de amargor, adstringência e umami em diferentes intensidades.
O umami é um dos cinco gostos básicos e está associado à percepção de um sabor persistente e encorpado, também encontrado em alimentos como cogumelos e caldos.
Em um matcha de boa qualidade, o amargor pode aparecer equilibrado pelo umami e por uma discreta doçura natural. A intensidade dessas características depende do cultivo, da qualidade das folhas, do processamento e da conservação do produto.
A temperatura da água e a técnica de preparo também influenciam o resultado. Água excessivamente quente pode acentuar a extração de compostos amargos e adstringentes. Já uma boa dispersão do pó contribui para uma textura uniforme, sem grumos.
Nas versões com leite e frutas, parte desse perfil fica suavizada. O leite acrescenta corpo, o morango oferece acidez e doçura, e ingredientes como baunilha ou pistache modificam a percepção aromática.
Por isso, conhecer o matcha puro é uma maneira de entender o papel que ele desempenha nas receitas contemporâneas.
Matcha tem cafeína? Quais são suas propriedades nutricionais?
O matcha contém cafeína, L-teanina e compostos fenólicos, principalmente catequinas, que pertencem ao grupo dos antioxidantes presentes no chá verde.
A cafeína tem efeito estimulante e pode contribuir temporariamente para o estado de alerta e a atenção. Sua quantidade varia conforme a qualidade do produto e a dose utilizada no preparo.
A L-teanina é um aminoácido estudado por seus possíveis efeitos sobre a atenção e o relaxamento, inclusive em combinação com a cafeína. Embora existam pesquisas sobre essas propriedades, os resultados não permitem garantir os mesmos efeitos para todas as pessoas.
As catequinas, especialmente a epigalocatequina galato, conhecida como EGCG, apresentam atividade antioxidante demonstrada em estudos laboratoriais.
Entretanto, é importante distinguir essas propriedades das promessas frequentemente associadas ao consumo da bebida.
Pesquisas sobre chá verde indicam possíveis efeitos modestos sobre alguns indicadores de saúde, como o colesterol LDL. Parte dos estudos, porém, utilizou extratos concentrados, não necessariamente matcha preparado como bebida.
Também não existem evidências suficientes para afirmar que o consumo de matcha provoque emagrecimento significativo ou previna doenças como câncer e problemas cardiovasculares.
Outro ponto importante é a composição das versões vendidas nas cafeterias. O matcha preparado apenas com água apresenta baixo valor calórico, mas a adição de leite, caldas, xaropes e cremes pode aumentar consideravelmente a quantidade de açúcar e as calorias.
O consumo de cafeína também merece atenção, especialmente entre pessoas sensíveis a estimulantes e gestantes.
Matcha é melhor que café?
A comparação se tornou comum porque as duas bebidas contêm cafeína e são consumidas em diferentes momentos do dia.
O café oferece compostos como os ácidos clorogênicos, enquanto o matcha contém catequinas e L-teanina. Ambos podem fazer parte de uma alimentação equilibrada, mas não existe fundamento científico para afirmar que um seja universalmente mais saudável que o outro.
A quantidade de cafeína depende do produto, da porção e do modo de preparo.
Do ponto de vista gastronômico, a diferença também está no sabor. Enquanto o café apresenta características influenciadas pela origem do grão e pela torra, incluindo amargor, acidez e notas aromáticas variadas, o matcha se destaca pelo perfil vegetal, pelo umami e pela textura.
A escolha depende das preferências individuais e da composição da bebida efetivamente consumida.
Mercado de matcha pode movimentar US$ 8,86 bilhões até 2033
O interesse pelo matcha acompanha uma expansão internacional que envolve cafeterias, marcas de alimentos e fabricantes de bebidas.
Em 2024, a consultoria Grand View Research projetava que o mercado global alcançaria US$ 7,43 bilhões até 2030. Uma atualização divulgada em 2026 passou a estimar US$ 8,86 bilhões para 2033, com crescimento médio anual projetado de 7,1% entre 2026 e 2033.
Os estudos consideram diferentes aplicações do matcha, incluindo chá, outras bebidas, alimentos e produtos de cuidados pessoais. Portanto, os valores não correspondem exclusivamente às vendas realizadas nas cafeterias.
Essas estimativas indicam as expectativas de crescimento do setor, mas não representam faturamento já realizado.
O Japão enfrenta dificuldades para acompanhar a procura
A popularidade internacional tem provocado consequências na cadeia produtiva japonesa.
Em julho de 2025, uma reportagem da Reuters mostrou que temperaturas elevadas prejudicaram a produção de chá no Japão, justamente em um período de aumento da demanda mundial.
Na região de Kyoto, os preços do tencha, matéria-prima do matcha, chegaram a registrar alta de 170% em um leilão, em comparação com o ano anterior.
A ampliação da produção também enfrenta limitações. Novas plantações necessitam de anos até alcançar condições adequadas de colheita, dificultando uma resposta imediata ao crescimento das encomendas.
Em julho de 2026, a Reuters voltou a registrar os efeitos da procura internacional sobre os preços e o abastecimento japonês.
A preocupação envolve tanto a capacidade produtiva quanto a manutenção das características que diferenciam o matcha de qualidade.
Depois do pistache, o matcha também vai aparecer em tudo?
A comparação entre as duas tendências ajuda a entender como determinados ingredientes passam a ocupar espaço em diferentes categorias de produtos.
O pistache ganhou enorme visibilidade em chocolates, sorvetes, cremes e sobremesas, impulsionado especialmente pela popularização do chocolate de Dubai.
O matcha, por sua vez, encontrou nas bebidas geladas uma maneira de conquistar novos consumidores e ampliar sua presença no cotidiano das cafeterias.
Os dois ingredientes compartilham uma identidade visual marcante, uma variedade de aplicações e o interesse gerado pelas redes sociais. Entretanto, suas histórias gastronômicas e seus perfis de sabor são bastante diferentes.
É cedo para afirmar se todas as versões de matcha que aparecem nos cardápios permanecerão populares. O que já se observa é a expansão de um ingrediente tradicional para novos contextos de consumo.
Para quem deseja conhecê-lo melhor, vale começar por um matcha latte com poucos ingredientes e, em outro momento, experimentar o chá preparado apenas com água. A comparação permite perceber suas características originais e entender como leite, frutas e cremes interferem no resultado.
A moda pode mudar, mas o matcha tem uma tradição que antecede em séculos sua popularidade nas redes sociais.